(Livro 1 Reis 9:10–18)
O sol já havia cruzado o ponto mais alto quando Salomão saiu para o terraço do palácio. Lá de cima, Jerusalém parecia respirar em ritmo silencioso, com suas casas brancas, seus mercados movimentados e a figura sagrada do Templo reluzindo ao longe. Era uma visão de glória — e de peso. Porque toda glória carrega responsabilidade, e naquele tempo, a responsabilidade do rei era vasta como o próprio horizonte.
As obras que transformaram Jerusalém e Israel nos últimos vinte anos estavam finalmente concluídas. O Templo. O palácio. As muralhas. As fortificações. Os reservatórios. Os portos. As estradas. As cidades-refúgio. Os depósitos reais. Era um mundo novo que surgia sob o governo de Salomão — um mundo de beleza, de grandeza e de diplomacia cuidadosa.
E agora, com tudo terminado, uma última obrigação precisava ser cumprida: a compensação ao rei Hirão, da Fenícia, o aliado sem o qual nada daquilo teria se tornado possível.
Hirão havia fornecido:
– cedros,
– ciprestes,
– artesãos,
– navios,
– marinheiros,
– e ouro precioso.
Era justo que fosse recompensado.
E Salomão já havia preparado o presente: vinte cidades na terra da Galileia.
Não eram apenas pedaços de terra — eram portas para o norte, rotas de comércio, terras férteis e regiões estratégicas.
Mas a história mostraria que nem tudo sairia como Salomão esperava.
A CHEGADA DE HIRÃO
Dias depois, a poeira do caminho começou a se erguer ao longe. Hirão, rei de Tiro, avançava com sua comitiva. Cavalos fenícios, carros adornados, brasões com a estrela de Melkart tremulando ao vento do litoral. Ele vinha não apenas como aliado; vinha como amigo. Sua relação com Salomão tinha sido um dos pilares da estabilidade na região.
Salomão desceu para recebê-lo na entrada principal da cidade. O encontro dos dois reis foi caloroso. Eles haviam se correspondido desde antes da construção do Templo. Tinham trocado cartas, presentes, planos, estratégias. E agora, se encontravam como homens que concluíram uma obra monumental.
— Hirão, meu irmão — disse Salomão, abrindo os braços. — Tu tens sido fiel em cada promessa, em cada envio de madeira, ouro e homens habilidosos. Nada teria sido erguido sem tua mão.
O rei fenício sorriu, com aquele ar calculado que todo comerciante do Mediterrâneo carregava.
— E tu tens honrado nossa amizade com sabedoria e justiça — respondeu. — Vim ver as cidades que me deste, para que possamos prosseguir com novos planos.
Salomão assentiu.
Era o momento decisivo.
AS CIDADES DA GALILEIA
A viagem até a região norte levou dias. A comitiva avançou por vales, colinas e estradas recém-ampliadas pelos engenheiros de Salomão. Hirão observava tudo com atenção: mercados, caravanas, postos militares, agricultores trabalhando nas encostas.
Mas quando chegaram ao conjunto de cidades destinadas ao rei fenício… o silêncio dele foi imediato.
As casas eram modestas.
Os campos não eram tão férteis como os do litoral fenício.
A rota comercial era estreita, mais útil a Israel do que à Fenícia.
E a população local não falava sua língua, não seguia seus costumes, não compreendia o comércio marítimo fenício.
Hirão caminhou por algumas das vilas.
O rosto que antes era cortês começou a adquirir expressão de frustração.
Ele olhou para um de seus oficiais e disse, num tom baixo, mas audível:
— Estas cidades… não servem ao meu povo.
E então ele deu um nome ao conjunto delas:
“Cabul” — que significa “sem valor”, “imprestável”, “que não agrada”.
Quando voltou a Jerusalém, encontrou Salomão à espera.
— Meu amigo — disse Hirão, com franqueza diplomática. — As cidades que me deste… não são boas.
Salomão permaneceu imóvel.
Não havia raiva em seus olhos, mas havia um peso. Um rei não podia mostrar fragilidade diante de outro.
— Lamento que não te agradem — respondeu Salomão. — Ainda assim, nossa aliança permanece. E a tua cooperação será lembrada.
E Hirão, para deixar claro que não romperia a amizade, enviou a Salomão quatro toneladas e meia de ouro, reafirmando a parceria.
Era uma troca política, não emocional.
Cada rei saía dali com seus próprios pensamentos.
A RAZÃO POR TRÁS DAS CIDADES
Ao contrário do que muitos poderiam imaginar, Salomão não oferecera aquelas cidades por desinteresse.
A verdade era muito mais estratégica.
A Galileia, naquele tempo, era formada por aldeias simples, pequenas e mais agrícolas do que comerciais. Para um povo acostumado a portos, navios, rotas oceânicas e comércio marítimo, como os fenícios, aquele território era… inútil.
Salomão sabia disso?
Talvez.
Ou talvez acreditasse que Hirão as transformaria em centros de comércio com sua experiência.
Seja como for, a decisão de Salomão revelava algo sobre seu governo:
Ele começava a criar alianças que beneficiavam Israel acima de tudo, mesmo que isso pudesse desagradar parceiros.
A sabedoria diplomática, às vezes, tinha bordas afiadas.
AS GRANDES OBRAS DE SALOMÃO
Mesmo enquanto lidava com reis estrangeiros, Salomão continuava expandindo seu reino com construções grandiosas.
1. O Reparo e Expansão das Muralhas de Jerusalém
A cidade precisava estar preparada para:
– proteger o Templo,
– abrigar peregrinos,
– receber mercadores,
– resistir a ataques inimigos.
Salomão mandou reforçar as muralhas, ampliando-as, elevando torres de vigia e criando portas fortificadas com enormes portais metálicos.
Jerusalém se tornava uma fortaleza de prestígio — inviolável e bela.
2. O Palácio, a Casa do Líbano e os Jardins Reais
O complexo palaciano incluía:
– a residência do rei,
– a sala do trono,
– o salão da justiça,
– o Pórtico das Colunas,
– a Casa do Líbano com seus cedros gigantes,
– jardins internos com canais de água,
– pavilhões para convidados estrangeiros.
Era arquitetura jamais vista em Israel.
3. Fortificações Nacionais
Salomão sabia que paz não durava para sempre.
Ele ergueu ou restaurou cidades-chave como:
– Hazor,
– Megido,
– Gezer.
Essas cidades eram pontos vitais de defesa.
Megido, em especial, se tornaria um símbolo militar tão forte que, séculos depois, seu nome ecoaria no termo “Armagedom”.
4. A Casa da Filha do Faraó
Salomão havia se casado com a filha do faraó — uma aliança diplomática sem precedentes.
Mas ela não poderia viver nos aposentos onde Davi vivera, porque eles haviam sido ungidos e consagrados para o serviço de Deus.
Por isso, Salomão construiu para ela uma casa própria, magnífica, ornamentada com esculturas, tecidos importados e artesãos de alto nível.
Esse ato, aparentemente simples, revela algo profundo:
Salomão equilibrava alianças políticas sem violar santidades internas.
Ele sabia separar o que era santo do que era estratégico.
A COMPLEXIDADE DO REINADO
Enquanto supervisores, mestres de obra e milhares de trabalhadores se espalhavam pelo reino, uma verdade começava a surgir lentamente na narrativa:
Salomão estava construindo um império.
Um império diplomático, comercial, cultural, militar, e também espiritual.
Mas em meio a tudo isso, alguns sinais surgiam, discretos:
– alianças com nações estrangeiras,
– casamentos estratégicos,
– tributos elevados,
– obras intermináveis,
– luxo crescente.
Nada disso era pecado em si.
Mas formaria, aos poucos, a estrada que mais tarde o desviaria.
Por enquanto, ele permanecia firme.
O REI DE OLHOS NO FUTURO
De volta a Jerusalém, após a visita de Hirão e após supervisionar novas obras, Salomão subiu mais uma vez ao terraço.
O vento soprava do leste, trazendo cheiro de poeira e de cedro.
O rei apoiou as mãos no parapeito.
Seu olhar varria a cidade — o Templo brilhando, o povo trabalhando, os mensageiros correndo entre palácios e portões.
Tudo era tão vasto, tão perfeito, tão alinhado…
Era difícil perceber onde terminava a bênção divina e começava a ambição humana.
Mas ali, naquele instante, Salomão ainda acreditava estar no centro da vontade de Deus — e, de fato, em muitos aspectos, ele estava.
O reino estava forte.
Israel estava unido.
O Templo estava concluído.
A glória do Senhor havia descido.
E as nações honravam o nome de Salomão.
Ele não sabia — ainda — que o Senhor apareceria novamente para falar com ele.
Mas isso viria em breve.
Por enquanto, havia apenas a sensação de que o reino estava crescendo mais rápido do que qualquer rei poderia controlar.
E no coração de Salomão, a fé ainda brilhava… mas ao lado dela, começava a nascer algo novo:
uma confiança no próprio poder.
E seria justamente essa mistura — fé e autoconfiança — que moldaria o futuro do rei mais sábio que já existiu.
CAPÍTULO 9 — PARTE 2 — EXPLICAÇÃO APROFUNDADA
1 Reis 9:10–18 — As cidades dadas a Hirão e as obras de Salomão
1. Contexto histórico do trecho
Após vinte anos de obras — sete dedicados à construção do Templo e treze ao palácio real — Salomão conclui os maiores empreendimentos de seu governo. Essas construções foram possíveis graças aos recursos fornecidos por Hirão, rei de Tiro, seu aliado desde a época de Davi.
Hirão forneceu:
- madeira de cedro e cipreste,
- ouro,
- artesãos habilidosos,
- marinheiros experientes,
- suporte logístico,
- materiais raros vindos pelo mar.
Como forma de pagamento, Salomão entrega a Hirão vinte cidades da Galileia, região ao norte de Israel.
Esse trecho da Bíblia revela aspectos diplomáticos, políticos e estratégicos do reinado de Salomão — e também lança luz sobre tensões que se formavam silenciosamente no reino.
2. Por que Salomão deu vinte cidades a Hirão?
A Bíblia não diz diretamente o motivo exato, mas podemos entender pelo contexto:
A) Compensação por materiais enviados
Hirão forneceu madeira, metais e ouro durante vinte anos. A entrega das cidades foi uma forma de pagamento — possivelmente parte de um acordo prévio.
B) Estratégia geopolítica
As cidades ficavam em uma região limítrofe entre Israel e a Fenícia. Tanto poderiam servir como:
- zona comercial,
- área agrícola,
- fronteira pacífica,
- rota de ligação entre os reinos.
C) Salomão priorizou o interesse interno de Israel
Para Israel, a Galileia tinha importância militar e agrícola.
Para Tiro, não.
O que era útil para Salomão não era para Hirão.
3. Por que Hirão rejeitou as cidades?
Esse é um detalhe curioso e frequentemente ignorado. A Bíblia diz que Hirão:
→ viu as cidades e não gostou delas.
→ chamou-as de “Cabul” (palavra que significa “sem valor”).
Os motivos prováveis:
1) Terras simples comparadas ao litoral fenício
Tiro era um reino marítimo, comercial, e vivia do Mediterrâneo.
As cidades da Galileia eram agrícolas, interioranas, sem portos.
2) Pouco valor econômico para os fenícios
A região não possuía:
- rotas marítimas,
- docas,
- centros comerciais,
- artesãos especializados.
3) População israelita
Isso implicaria:
- choque cultural,
- resistência,
- pouca vantagem política.
Hirão percebeu que administrar aquelas cidades seria um prejuízo, não um benefício.
4. Por que Salomão deu terras que Hirão não gostaria?
Há duas linhas de interpretação:
1) Diplomacia calculada
Salomão escolheu cidades que não afetariam o poder central de Israel.
Ele não entregaria portos, fortalezas ou locais estratégicos.
2) Expectativa de que Hirão valorizasse mais as terras do que realmente valiam
Salomão pode ter acreditado que Hirão poderia transformá-las.
3) A entrega pode ter sido simbólica
Alguns estudiosos sugerem que as terras voltaram a Israel logo depois.
5. E por que Hirão ainda enviou ouro para Salomão depois disso?
Isso mostra que:
- a aliança era mais importante do que a discordância,
- o comércio entre os dois povos era lucrativo,
- Hirão não queria conflitos,
- Israel era o maior comprador de madeira de cedro na época.
Mesmo insatisfeito, Hirão enviou 120 talentos de ouro (cerca de 4 toneladas e meia).
Esse envio reafirma:
- respeito,
- diplomacia,
- continuidade da parceria.
6. As grandes obras de Salomão (v. 15–18)
O texto também menciona diversas obras realizadas pelo rei:
1) Fortificação de cidades estratégicas
- Hazor — fronteira norte (defesa contra arameus)
- Megido — rota comercial internacional
- Gezer — fronteira leste, próxima aos filisteus
Essas cidades eram fundamentais para a segurança do reino.
2) Construção da “Casa do Líbano”
Um enorme complexo real usado para:
- recepções,
- armazenamento,
- administração,
- exibição do poder militar.
3) Ampliação das defesas de Jerusalém
- muralhas,
- torres,
- estradas internas.
4) Construção de centros logísticos e cidades-armazém
Salomão organizou o reino como um império militar e comercial sofisticado.
7. O que essa passagem revela sobre Salomão?
A) Um rei sábio, mas também político
Ele sabia negociar, alinhar interesses, e preservar alianças.
B) Um administrador que expandiu Israel
Nenhum rei antes dele havia construído tanto.
C) Começos de tensões sociais e econômicas
Alguns estudiosos afirmam que essa fase revela o início de:
- trabalho forçado,
- desigualdade,
- discrepâncias internas,
pontos que mais tarde apareceriam de forma mais evidente nos reinados seguintes.
D) A diplomacia acima das emoções
Mesmo quando Hirão rejeitou as cidades, Salomão manteve a calma e preservou a relação.
8. Aplicações espirituais e teológicas
1) Nem toda aliança é perfeita
Até parcerias boas podem ter discordâncias — e isso não significa ruptura.
2) Deus usa relações humanas para cumprir Seus propósitos
A construção do Templo só aconteceu porque houve cooperação internacional.
3) Nem tudo que é valioso para nós é valioso para os outros
As cidades eram importantes para Israel, mas não para Tiro.
4) Sabedoria exige equilíbrio
Salomão soube:
- manter alianças,
- evitar conflitos,
- continuar construindo,
- avançar no propósito central: liderar Israel rumo à prosperidade.
FAQ – Perguntas Frequentes
1. O que acontece em Josué 9:10–18?
Neste trecho, os mensageiros gibeonitas apresentam sua história falsa a Josué e aos líderes, que avaliam alimentos e roupas desgastadas, acreditam no relato e fazem um pacto sem consultar o Senhor.
2. Por que esse engano foi bem-sucedido?
Porque Israel confiou em evidências humanas, não buscou discernimento espiritual e tomou decisões com base apenas no que parecia lógico.
3. O pacto com Gibeão foi pecado?
O pecado não foi o pacto em si, mas não consultar Deus antes de firmá-lo. O acordo tornou-se irrevogável por respeito ao juramento diante do Senhor.
4. O que acontece em Josué 9:19–28?
Os líderes reconhecem que não podem romper o pacto. Israel cumpre a palavra, mas transforma os gibeonitas em servos do templo, responsáveis por cortar lenha e carregar água.
5. Por que Deus permitiu esse engano?
Para ensinar Israel (e a nós) sobre prudência, dependência espiritual e responsabilidade sobre as palavras que pronunciamos.
6. Há aplicação prática para hoje?
Sim. O capítulo ensina sobre discernimento, liderança sábia, consequências das escolhas e fidelidade à palavra empenhada.
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Se este estudo te ajudou a compreender melhor o capítulo, continue explorando os próximos comentários de Josué para aprofundar ainda mais seu entendimento. Cada trecho traz lições valiosas para a vida prática e espiritual
- Capítulo 1 — A promessa de Deus a Salomão
/capitulo-1-promessa-de-deus-a-salomao - Capítulo 2 — A construção do Templo: materiais, simbolismo e arquitetura
/capitulo-2-construcao-do-templo-materiais-simbolismo - Capítulo 3 — A entrada da Arca da Aliança em Jerusalém
/capitulo-3-entrada-da-arca-da-alianca - Capítulo 4 — A nuvem da glória enche o Templo
/capitulo-4-nuvem-da-gloria-no-templo - Capítulo 5 — A oração de Salomão (dedicação do Templo)
/capitulo-5-oracao-de-salomao-dedicacao-do-templo






